Antes da Maternidade, a Perda

Antes de mais, quero agradecer à Clara o convite para participar neste blog. Sou a Ana e também fui mãe recentemente. O meu pimpolho tem cerca de 3 meses e meio, e pode dizer-se que sou a correspondente estrangeira neste blog. Sim, mais à frente conto-vos a minha história.  Mas para falar de maternidade, tenho que ir um pouco atrás, a um outro tema que afecta muitas mulheres em Portugal (e pelo que já me apercebi por esse mundo fora), e do qual não se fala. 

Falo do aborto espontâneo. Falo-vos deste tema, porque o vivi na primeira pessoa e conheço outras pessoas que passaram pelo mesmo. Foi muito difícil lidar com a situação, e quando finalmente resolvi a situação comigo própria, decidi que ajudaria quem pudesse com este tema, pois se ajudar pelo menos uma pessoa já terá valido a pena. Decidi também falar sobre ele, porque faz parte da minha história de maternidade, de como encarei e encaro a mesma, e como influenciou a minha gravidez seguinte.

Já há algum tempo que eu e o meu marido falamos em ter filhos. “Para o ano”, era sempre para o ano seguinte, mas eu começava a sentir o tic tac do relógio biológico. Entretanto, decidimos deixar nas mãos do destino. Deixámos os contraceptivos, e quando aparecesse, aparecia. Estávamos perto do final do ano, e uma das minhas decisões de ano novo era precisamente ir fazer o check up pre-natal, mas entre o vai hoje, vai amanhã, houve qualquer coisa que faltou entretanto: O Período. Deixámos passar mais uns dias e decidimos comprar um teste de gravidez. O teste dizia na caixa que demorava até 3 minutos e ele não demorou nem um minuto a  informar-nos que estávamos “grávidos”. Lembro-me bem desse dia: andei num estado sobrenatural. Não acreditava que dentro de mim, crescia uma vida, e que tinha que esperar 9 meses para ver a carinha do meu filho ou filha. Entrei quase em êxtase. Apressei-me a marcar a consulta, pois não tinha chegado a fazer os exames pre-concepcionais e estava receosa e ansiosa por saber se estava tudo ok. Tivemos que esperar quase duas semanas pela consulta, mas nunca vou esquecer o momento em que a ecografia mostrava aquela bolinha pequenina. Estava grávida de 5 semanas e só dali a uns 15 dias poderíamos saber se a gravidez era viável, pois é por essa altura que se ouve o coração, mas que em principio estava tudo bem. Sai de lá nas nuvens, e como não quisemos tentar o destino, não contamos a ninguém. Nem aos pais. Íamos esperar pela próxima consulta. Pelo meio houve quem desconfiasse, mas que respeitaram o facto de não querermos contar antes dos 3 meses.

No fim-de-semana anterior, notei que as minhas mamas (vamos chamar as coisas pelos nomes ok?) tinham perdido a tensão mamária e comecei a ficar paranóica. Três dias antes da consulta, senti-me muito cansada e com muitas dores nos rins. Tentei não ligar e pensava que eram coisas da gravidez. No dia seguinte acordei com sangue. A médica na primeira consulta tinha dito peremptoriamente: Se houver sangue não é normal e contactem-me de imediato. E assim o fiz. 

Tive que ir a correr fazer analises que seriam comparadas com as do dia seguinte. Se os níveis de Beta (a substancia que as mulheres segregam quando estão grávidas, e que faz os testes de gravidez darem positivo) estivessem a descer, então estaria a abortar.

No segundo dia, eu já sabia que estava a perder o bebé (para mim já era o meu bebé), e estavam a fazer-me a colheita com uma mulher super grávida atrás de mim a fazer um CTG (para quem já fez ou conhece a maquina, sabe o barulho que faz, e podem imaginar a tortura). Foi das coisas mais difíceis que tive que suportar. Doeu-me na alma, no coração, toda eu doía por dentro. Ao final do dia, a sentença chegou ao meu email. E aceitei. Mas estava despedaçada. Reagi mal. Doía sempre que via uma mulher grávida, sobretudo quando calculava que a minha barriga devesse ter mais ou menos o tamanho de alguma com que me cruzasse. Nunca lhes desejei mal, não sou dessas, mas sentia uma dor, uma injustiça tão grande. Era um caso de inveja da barriga. 

A minha primeira reacção foi: não quero voltar a passar por isto. Nunca vou ser mãe. Não sei como reagiria se estivesse novamente perante um teste de gravidez positivo. O medo do aborto era real. Comecei o meu processo de cura com yoga (já praticava antes), com meditação, falando do assunto (inclusive com outras mulheres que passaram pelo mesmo), e umas mini-ferias nas termas (acreditem que faz maravilhas!) e comecei a sentir-me melhor. Ao fim de algum tempo, cheguei à conclusão: não quero pensar em bebés agora, quero aproveitar bem a Primavera e o Verão e depois logo voltávamos a falar no assunto.

No mês seguinte o período não veio. Antes do Verão já estava novamente grávida.

Mas o ponto aqui é que durante o meu processo de dor e cura apercebi-me do quão pouco se fala nas mulheres que passam por um aborto espontâneo, e do facto de não haver apoio. Pouco tempo depois li na imprensa inglesa que se queixavam do mesmo. Ou seja, existe apoio para as mulheres que perdem filhos ( nascituros ou mais velhos), mas não para as mulheres que passam por este tipo de dor e que muitas vezes não conseguem voltar a engravidar. 

Esta foi a minha primeira grande (in)certeza da maternidade e que moldou a minha gravidez seguinte. Se passaram por esta situação, e quiserem partilhar, a secção de comentários está activa e teremos muito gosto em receber o V/ feedback.


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